As pequenas empresas ainda veem barreiras para acessar recursos.

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As micro, pequenas e médias empresas ainda enfrentam obstáculos para acessar o crédito em meio à crise, apesar do aumento do volume de concessões a pessoas jurídicas em março e abril. Representantes de dez setores entrevistados pelo Valor reportam altas taxas em algumas situações e maior demanda por garantias na busca de novas linhas, e reclamam do atraso na publicação de programas oficiais de financiamento do segmento.

“Converso com os lojistas todos os dias e os recursos não chegam, eles não podem acessá-los”, diz Glauco Humai, presidente da Abrasce, uma associação que reúne 400 shopping centers.

Não que o dinheiro não esteja disponível. Segundo ele, as modalidades são as mesmas oferecidas antes da crise, com as mesmas taxas. Em alguns casos, houve até uma redução nas taxas de juros. Ainda, Humai diz, isso não é suficiente para o momento atual, quando a maioria das lojas está fechada.

Os bancos começaram a pedir aos varejistas mais garantias. No entanto, a interrupção das atividades reduziu a disponibilidade dos principais ativos dessas empresas: crédito por cartão. A Abrasce negocia uma linha com o BNDES e está disposta a correr o risco e transferir fundos sem propagação. Sem a perspectiva de reabertura e sem crédito suficiente, a associação estima que 20% dos 105.000 proprietários deixarão de operar em 30 dias.

Garantir a sobrevivência também é uma necessidade na indústria de máquinas. A Abimaq, uma associação do setor, pesquisou 8.000 empresas e descobriu que 45% precisam de capital de giro para continuar operando. Desses, 25% dos que recorreram aos bancos contrataram esse tipo de crédito. O custo médio, próximo a 12,5% ao ano, foi considerado alto e a exigência de garantia aumentou.

Os pedidos de garantias mais reforçadas também são apontados pelas empresas de implementos rodoviários como um obstáculo. Segundo Norberto Fabris, presidente da Anfir, uma associação do setor, os bancos oferecem taxas mensais do CDI mais um spread superior a 1%. “O segmento tem muitas pequenas empresas que produzem baús para entrega de mercadorias às cidades”, diz ele.

“O dinheiro não está chegando aonde deveria ir”, diz José Veloso, presidente da Abimaq.

Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostram que a concessão de crédito a pessoas jurídicas totalizou R $ 322,9 bilhões entre 16 de março, quando eclodiu a crise e, no final de abril, entre novos recursos, reformas e ampliações de cotas. . O volume cresceu 40% em relação a março e abril de 2019. “Isso se deve ao aumento expressivo da demanda por crédito bancário em geral, devido à forte incerteza do cenário econômico, à redução das operações no mercado de capitais e à cancelamento de linhas de financiamento externas para o Brasil. A expansão da demanda foi atendida pelo setor bancário nacional “, afirma a entidade que representa as instituições financeiras.

As grandes empresas possuíam mais de R $ 200 bilhões do total concedido nesses 45 dias. No final de março, grandes empresas recorreram aos bancos em busca de liquidez, o que pressionou a oferta e as taxas. Foi o caso de M. Dias Branco, que captou quase R $ 500 milhões em recursos bancários no primeiro trimestre para fortalecer sua posição de caixa. “Pegamos recursos logo no início da pandemia. Ainda assim, os bancos brasileiros e internacionais aumentaram os spreads. Em média, tivemos um aumento de dois pontos percentuais no custo da dívida “, diz Gustavo Theodozio, vice-presidente de investimentos e controle.

A corrida do crédito das grandes empresas foi visível nos balanços dos bancos no primeiro trimestre, e o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr., comparou-a à demanda popular por álcool em gel no início da pandemia. “A situação já se normalizou”, disse ele em uma teleconferência para apresentar os resultados.

No setor químico, a percepção é de que houve dificuldades no acesso a recursos de emergência no início da crise. “O dinheiro não chegou devido à falta de capilaridade, ou chegou, mas foi caro”, diz o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Ciro Marino. Segundo ele, o fluxo melhorou depois que o BC foi autorizado a comprar títulos públicos e privados no mercado e agora não há grandes queixas entre os membros.

Os executivos do banco dizem que não há orientação para aumentar as taxas de juros nas operações de empréstimo. Segundo eles, as tabelas praticadas antes do início da crise foram mantidas e, em alguns casos, até diminuíram devido à queda da taxa Selic. Os dados do banco central também mostram estabilidade ou queda nas taxas de juros. Isso não significa que o dinheiro não seja mais caro para o mutuário, que pode aumentar seu risco de crédito com a retração da atividade.

Uma fonte vinculada aos bancos confirma que a demanda por garantias pelas instituições financeiras aumentou e se tornou o “novo normal” nesse ambiente incerto. “É uma maneira de manter o limite, até aumentá-lo, sem aumentar demais as taxas e continuar oferecendo crédito”, diz ele. “Seria ingênuo acreditar que passaríamos por um evento dessa magnitude sem alterar as condições de crédito”.

A crise atual, de proporções ainda desconhecidas, levou os bancos a aumentar sua cautela diante de uma provável escalada de inadimplência. Um sinal disso foi o aumento de 88,4% nas despesas com provisões para perdas de crédito dos maiores bancos do país (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil), que totalizaram R $ 25,8 bilhões no primeiro trimestre.

Uma tentativa de mitigar o risco de crédito para pequenas empresas foi a linha de financiamento de folhas de pagamento, na qual 85% dos R $ 40 bilhões oferecidos são provenientes do Tesouro. Os fundos podem ser captados em 3,75% ao ano e pagos em 36 meses. O processo ficou aquém do que os bancos imaginavam devido às exigências das empresas de não demitir, ter uma folha de pagamento (muitos pagam funcionários em dinheiro) e não ter problemas pendentes com o INSS; Essa condição foi removida com a aprovação do PEC. O mercado de impressão, formado principalmente por micro e pequenas empresas, é um exemplo da baixa efetividade da medida. O presidente da Abigraf, Nacional, Levi Ceregato, diz que apenas 3% das empresas que solicitaram a linha levaram os recursos.

Agora, os bancos estão discutindo mudanças nos empréstimos consignados com o governo, e a expansão do escopo das empresas atendidas aumentou para um corte no faturamento de até

R $ 30 milhões, comparado aos atuais R $ 10 milhões. Outra aposta das instituições financeiras são as mudanças no Fundo de Garantia de Investimentos do BNDES (IGF), para servir de apoio a empréstimos a pequenas e médias empresas. O projeto prevê que o fundo absorverá boa parte do padrão dessas operações.

Em vários setores ouvidos pelo Valor, existe a sensação de que os bancos públicos são mais restritivos em crédito e que o governo não tem agilidade para fazer o dinheiro fluir. Para alguns executivos, os programas em discussão no Ministério da Economia e no BNDES estão demorando demais para decolar. O BNDES já concedeu R $ 2,2 bilhões para uma linha de emergência de R $ 5 bilhões destinada a pequenas e médias empresas. Além disso, reduziu o requisito de documentação e trabalha em um modelo de distribuição de crédito por meio de fintechs e credenciadores. “Estamos procurando outras maneiras além do bancário, para que o crédito atinja o limite”, diz uma fonte próxima a ele.

fonte: https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/05/13/pequenas-empresas-ainda-veem-obstaculos-no-acesso-a-recursos.ghtml

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