Proposta assinada pelo Brasil defende que a OMS seja investigada

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Jamil Chad é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com visitas a mais de 70 países, o jornalista paulista também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da Transparency International, foi presidente da Associação de Imprensa Estrangeira da Suíça e contribui regularmente para a mídia internacional como a BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, Francia24, La Sexta e outros. Morando na Suíça desde 2000, Chad é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi escolhido duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Na segunda-feira, o governo do Brasil e outros 60 países do mundo votarão uma resolução que exigirá a abertura de uma investigação “imparcial e independente” da resposta dada pela OMS à pandemia.

A agência de saúde realiza sua assembléia anual, com a participação de chefes de estado e ministros dos 194 países. O evento virtual deve ser marcado por duras críticas à OMS e ataques mútuos entre governos.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, usou seu primeiro discurso na assembléia nesta manhã para anunciar que uma revisão do trabalho da agência começará. Mas ele não indicou quando. “Estamos dispostos a ser transparentes”, disse ele.

“Assim que possível, iniciaremos uma avaliação independente e faremos recomendações para melhorar as respostas nacionais e internacionais”, anunciou Tedros, na esperança de conter as críticas.

Mas ele alertou que também pedirá aos governos que façam seus exames internos e, de boa fé, que aprendam a lição do que o mundo está passando hoje. “Todos temos que aprender lições”, disse ele. “Todo governo precisa examinar suas respostas”.

Sua proposta é que, juntamente com a OMS, os governos também sejam revisados ​​regularmente e solicitem aos países que façam o necessário para superar a crise, para que isso nunca aconteça novamente.

Para Tedros, o mundo precisa de uma OMS mais forte. “A pandemia nos pergunta: que mundo queremos? E quem queremos?” “O mundo não precisa de outra organização, mas para fortalecer a OMS”, afirmou.

O diretor novamente defendeu o fato de que ele emitiu alertas no início da crise. “E repetimos os alertas”, disse ele.

Em sua abertura, o Secretário Geral da ONU, Antonio Guterres, admitiu a necessidade de uma revisão da entidade. Mas ele insistiu que este não é o momento certo e que a prioridade deve ser vencer o vírus. No entanto, ele alertou contra ataques à entidade e uma possível decisão de alienar a agência. “A OMS é insubstituível”, disse ele.

Trump continua o ataque

Em um duro ataque à OMS, o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Alex Azar, usou o evento para alertar que a OMS precisa mudar “agora”. Sua declaração foi recebida como um aviso de que ele não esperará até o final da pandemia para exigir uma reforma da entidade. “A OMS precisa mudar, para ser mais transparente”, afirmou.

“Precisamos ser francos: a organização não tinha informações e custou muitas vidas”, disse o secretário, referindo-se ao atraso da China em alertar a OMS para a existência do vírus.

No entanto, na OMS, as autoridades observam que o aviso foi emitido ao mundo no final de janeiro e que, durante semanas, muitos governos ignoraram as recomendações. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, indicou que a recusa de alguns governos em ouvir a OMS está causando sérios danos ao mundo.

China apoia, mas somente após o fim da pandemia

Xi Jinping, presidente da China, tomou a palavra, defendeu-se das críticas internacionais de que havia silenciado os casos e indicou que reconhecia a necessidade de uma investigação. Mas ele alertou que esse trabalho deve ser realizado em um segundo momento. Seu governo, acusado de encobrir os primeiros casos, evitava permitir a entrada de uma equipe internacional para investigar a origem do vírus.

Na segunda-feira, Xi admitiu que a OMS deve passar por uma revisão e disse que foi transparente. Em uma tentativa de romper com os ataques de Donald Trump à agência, os chineses reforçaram sua tentativa de multilateralismo e anunciaram que destinará US $ 2 bilhões para ajudar o mundo a lidar com a pandemia.

Ele também apoiou a OMS, elogiou o trabalho de Tedros e insistiu que o mundo precisa agir em conjunto.

Emmanuel Macron, presidente da França, defendeu uma “OMS forte”. A chanceler alemã Angela Merkel também defendeu a OMS, chamada pelo chefe de governo como uma “entidade legítima”. Para ela, o mundo deve primeiro combater a pandemia, antes de considerar outras medidas.

Em uma resolução que estará sobre a mesa, os governos solicitarão que seja iniciado um processo de avaliação dos mecanismos existentes na OMS para responder a emergências globais.

A resolução também solicita que o processo também avalie a regulamentação internacional da saúde, um acordo fechado em 2009 que cria obrigações para os países reportarem possíveis surtos à OMS.

Também questionará “a contribuição da OMS para os esforços da ONU”, uma maneira diplomática de forçar uma revisão das práticas da organização.

O texto está sendo proposto pelo Brasil, Austrália, Chile, Colômbia, Japão, UE, Rússia, Reino Unido e vários outros governos. Não está claro se Pequim e Washington aceitarão o acordo.

Para os americanos, o texto ainda é considerado progressivo em termos do papel central atribuído à OMS em questões de saúde.

Negociado por três semanas em reuniões intensas, o texto teve que ser extensivamente construído para dar espaço a todas as opções. Governos como a Austrália querem uma avaliação imediata do papel da OMS e da China, enquanto a Europa acredita que essa avaliação só pode ser feita superando a pandemia.

No entanto, Tedros será objeto de intenso questionamento em sua reunião de hoje. O governo Donald Trump decidiu concentrar seus ataques na OMS, na esperança de encontrar um culpado na crise. Tedros, por sua vez, alerta que a declaração de emergência global ocorreu em 30 de janeiro e que apenas algumas semanas depois os Estados Unidos reagiram.

Novo ministro

Até sexta-feira, seria Nelson Teich quem acompanharia os debates na OMS e faria o discurso em nome do governo de Jair Bolsonaro.

Mas, com sua saída do Ministério da Saúde, foi aberta a incerteza sobre quem representaria o Brasil. A OMS até pediu esclarecimentos sobre quem falaria em nome do país, inclusive para estabelecer sua lista com base no protocolo diplomático.

Neste domingo, Brasília indicou que o discurso do país na OMS deve ser proferido por Eduardo Pazuello, oficial militar que ocupa temporariamente a vaga de Teich. O general, que disse ser “leigo” em questões médicas, coordenou a operação para comprar equipamentos e máscaras.

Em Genebra, chamou a atenção o fato de o Brasil indicar a participação de um militar, principalmente em vista do alto número de especialistas reconhecidos e dos nomes de destaque no país em Saúde. No entanto, a regra estipula que um país deve ser representado no evento pelo chefe de governo ou por um ministro.

fonte: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/05/18/proposta-assinada-pelo-brasil-defende-que-oms-passe-por-exame-independente.htm

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