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Aumento prolongado dos preços das commodities polui setores e a inflação se torna um entrave ao PIB em 2022

Aumento prolongado dos preços das commodities polui setores e a inflação se torna um entrave ao PIB em 2022

SÃO PAULO E RIO – Os principais índices mostram que a inflação se aproxima de 10% em termos anuais, mas o motorista do aplicativo Paulo Maurício de Santana, 37, tem outra medida: a viagem cada vez maior ao volante para pagar contas e levar comida para a esposa dele. , Paola e gêmeas de dez meses em Catumbi, Zona Norte carioca. Atualmente, ele dirige dez horas por dia.

A receita dos nove dias do mês, de R $ 2 mil, é utilizada exclusivamente para aluguel de carro e combustível. O que ela ganha no resto do mês mal dá para pagar suas contas. A conta de luz este ano saltou de cerca de R $ 120 para R $ 160, mesmo com a economia da família, afirma. Na mesa, a solução foi trocar alimentos caros por outros mais baratos. A carne se tornou um luxo.

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“Agora comemos muito mais frango. Só entra em casa um quilo de carne por mês, geralmente bem mais barato, o que é mais barato – diz o ex-taxista, que viu sua poupança diminuir com a pandemia, vendeu o próprio carro para pagar dívidas e adiou o sonho de abrir mão do próprio casa. – O GNV (combustível para automóveis) subiu muito, mas a taxa de aplicação caiu. Nas corridas em que tirei R $ 20, agora é R $ 15.

A prolongada desvalorização do real frente ao dólar e a alta dos alimentos, matérias-primas, combustíveis, eletricidade e outros itens básicos têm um efeito dominó na economia e aumentam o desconforto do consumidor.

Agosto foi um mês severo para o regime hidrológico do Sistema Interligado Nacional (SIN) Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Esse spread de preços elevados em um cenário de alto desemprego e renda contratada torna a inflação uma ameaça ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. Economistas já falam em estagflação, a combinação perversa de estagnação com pressões inflacionárias, no Brasil. ano eleitoral.

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Imediatamente após o anúncio do desempenho do PIB na semana passada no segundo trimestre, com retração de 0,1%, bancos, economistas e consultoras intensificaram o movimento para reduzir suas estimativas de crescimento para 2022. Embora o governo fale em expansão de 2,5%, analistas revisaram previsões para o próximo ano para menos de 2%.

perda de renda real

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, avalia que a alta da inflação traz uma perda de renda real, o que afeta o consumo. E os sinais de uma economia em risco tendem a prejudicar os investimentos, diz ele:

– A conjunção de uma crise hídrica com um forte aumento das taxas de juros provoca uma sensação de estagflação iminente. Nossa expectativa de alta de 1,4% do PIB até 2022 deve ser revisada para baixo nos próximos meses.

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Para Simão Silber, presidente do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da USP, a situação pode piorar, com uma recessão em 2022. O risco, avisa, é que o corte de preços vire uma bola de neve:

– Em um país com histórico de indexação, foi um erro deixar a inflação ir tão longe.

Preços Foto: Arte OU GLOBO

A inflação ganhou fôlego agora, com o IPCA acumulando alta de 8,59% em 12 meses, mas a desvalorização do real vem pressionando os preços desde o início do governo Bolsonaro. O dólar começou 2019 em R $ 3,85 e, depois de se aproximar de R $ 6, está hoje em R $ 5,20. Só em 2020, o dólar subiu quase 30%, o maior aumento desde 2015.

O dólar reflete os riscos

Os investidores relatam dados de emprego nos EUA mais fracos do que o esperado. Foto: OZAN KOSE / AFP

A taxa de câmbio é influenciada pelos riscos fiscais e políticos do país e afeta diversos preços. Desde janeiro de 2019, o IPCA aumentou 13,8%, segundo levantamento do MB. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPC), calculado pela Fipe e que mede a inflação para famílias com renda entre um e dez salários mínimos em São Paulo, acumula alta de 16,95% no mesmo período.

O fator câmbio deve afetar a inflação por mais tempo, diz o economista Sérgio Kannebley Júnior, professor da USP de Ribeirão Preto (SP). A estimativa é que entre janeiro de 2020 e dezembro deste ano, a taxa de câmbio tenha impactado o Índice de Preços no Atacado (IPA) entre 2,14 e 2,94 pontos percentuais. No IPCA, o impacto em dois anos chega a 1,7 ponto percentual.

– O choque cambial atinge primeiro as importações e se reflete nas taxas de inflação no atacado. Com o passar do tempo, tudo se resume aos preços ao consumidor, diz Kannebley, observando que os gastos do governo desempenham um papel importante. – A inflação de 2021 acabou. O problema agora é 2022. O risco é a estagflação. É difícil acreditar em austeridade em ano eleitoral. Muito provavelmente, esse projeto de lei cairá nas mãos do próximo governo, seja ele qual for.

comida mais cara

Foto do supermercado: Pixabay

O câmbio potencializa o efeito da alta de preços no mercado internacional, como os de cereais. Só em 2020, o preço do milho subiu 100%. Nos supermercados, os preços do frango e da carne suína subiram 30% e 20%, respectivamente. Pelos cálculos da Embrapa, o custo de produção desses itens subiu 50% nos últimos 12 meses, contaminado pelo aumento do milho e do farelo de soja, que alimentam os animais.

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– Nem todos os aumentos de custos foram substituídos ainda. Teremos safra de milho e soja no final do ano, mas o abastecimento só será regular na segunda safra do ano que vem – avisa Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Nas commodities metálicas, o minério de ferro impulsionou o boom do aço, insumo da construção civil, montadoras e fábricas de eletrodomésticos. Também queima de alumínio e cobre. Soma-se a isso o preço do barril de petróleo. A taxa do Brent passou de US $ 63 em 2019 para US $ 72, o que impulsionou os preços dos combustíveis.

Custos elevados pressionam setor, que vê repasse

Fábrica da Nissan em Resende encerrará produção a partir desta sexta-feira. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo (13/07/2017)

A petroquímica reajustou o eteno, encontrado em embalagens plásticas, fibras sintéticas, produtos de beleza e materiais hospitalares, em quase 100%. Isso depois que a nafta, derivado do petróleo que é matéria-prima do setor, saltou de US $ 200 no início de 2020 para US $ 670 em julho de 2021.

– Provavelmente terminaremos o ano com queda na margem de lucro. Por mais que as empresas reajustem seus preços, elas não podem repassar tudo, diz Fátima Ferreira, economista da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

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A fabricante de calçados Boa Onda, do Rio Grande do Sul, tinha o poliuretano, matéria-prima das palmilhas, como seu principal vilão, mas não o único. A petroquímica subiu 80% desde 2019, mas a eletricidade também pressiona os custos, afirma Cássio Romani, gerente de marca da empresa.

Boa Onda passou a reciclar rejeitos e ingressou no mercado livre de energia para reduzir a fatura em 25%. O custo de embalagem e transporte de papel não poderia aliviá-lo. Com isso, o preço das sandálias babuche, um dos carros-chefe da marca, subiu 24% para o varejo e 30% para o consumidor.

– A inflação é prejudicial, perversa. Conseguimos nos mexer de alguma forma, mas o consumidor hoje paga mais para ter o produto em pé, diz Romani.

As empresas lutam para não repassar aos consumidores porque, ao contrário da inflação provocada pela alta demanda, a inflação corrente está atrelada aos custos dos produtos e serviços em meio à crise do mercado de trabalho.

Guilherme Moreira, da Fipe, ainda vê a inflação contida, pois vários aumentos da pandemia foram postergados, esperando a recuperação da economia em 2022:

– Quando o consumo retorna, os aumentos são transferidos.

Vale lembrar que o aumento do consumo no exterior também influencia os preços por aqui, pois estimula as exportações e reduz a oferta do país:

– Brasileiros disputam carne com europeus e chineses.

fonte: https://oglobo.globo.com/economia/alta-prolongada-nos-precos-de-itens-basicos-contamina-setores-inflacao-vira-entrave-para-pib-em-2022-25185359

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